TOXICOLOGIA - cogumelos alucinógenos

21/08/2017

Os alucinógenos são drogas, de origem natural ou química, que quando utilizadas em doses não tóxicas provocam mudanças na percepção (mais comum é a visual), na capacidade de pensar e no estado e ânimo. Estes também são conhecidos como drogas psicodélicas, principalmente nos Estados Unidos (OGA, 2008).

A alucinação provocada por essas drogas caracteriza-se por um conjunto de percepções elaboradas pela mente e projetadas sobre os sentidos como se a sensação tivesse sido provocada por algo já existente, uma sensação subjetiva que não corresponde a estímulos externos, ou seja, é a percepção real de um fator inexistente. Mesmo na falta de um agente causador, todas as sensações são reais, podendo provocar medo, prazer, dor, ansiedade, entre outros (OGA, 2008).

Na grande maioria das vezes as alucinações se manifestam através de alterações visuais, estas também podem ser auditivas (percepção de sons irreais), olfativas, gustativas e até mesmo táteis (geralmente apresentam um caráter obsessivo e desagradável). Vale ressaltar que durante a avaliação dos efeitos é importante que alucinação seja diferenciada de delírio, pois cada uma reflete uma condição diferente e ambos os termos costumam ser empregados de forma errônea (OGA, 2008).

Existem várias substâncias que são capazes de provocar alucinações entre estas destacam-se:

1º grupo: Substâncias que provocam alucinações quando em altas doses. Ação alucinogênica está relacionada com a ruptura metabólica dos tecidos nervosos- etanol, metais e hidrocarbonetos.

2º grupo: Substâncias ditas delirantes- atropina, fenciclidina e triexifenidil

3º grupo: Substâncias alucinógenas propriamente ditas- LSD (dietilamida do ácido lisérgico), mescalina e psilocina (OGA, 2008).

Os cogumelos alucinógenos têm sido utilizados entre povos antigos e por curandeiros em rituais religiosos há milhares de anos, principalmente em locais como México, Guatemala e Amazônia. Estes foram descritos cientificamente pela primeira vez em 1957 por Wasson e na década de 1960 passou ser utilizado como uma alternativa natural ao LSD, já nos anos 80 houve uma popularização do uso recreacional entre universitários (ROSSATO, 2008).

Existem atualmente cerca de 10 mil espécies de cogumelos, sendo que mais de 200 são conhecidas por possuírem capacidade alucinógena. No Brasil são comumente encontradas espécies de cogumelos alucinógenos pertencentes aos gêneros Psilocybe e Pluteus caracterizados pela presença de alcaloides indólicos derivados do aminoácido triptofano, especialmente a psilocibina e a psilocina (ROSSATO, 2008).

A psilocibina (4-fosforiloxi-N,N-dimetiltriptamina) e seu metabólito psicoativo psilocina (4-hidroxi-N,N-dimetiltriptamina) são alcaloides indolamínicos que possuem reconhecida ação de alucinógena. Possuem estrutura semelhante a da serotonina (5-hidroxitriptamina), neurotransmissor envolvido na modulação de manifestações comportamentais como a agressividade, a atividade motora, o sono e o apetite. Sendo assim, estes agonistas serotonérgicos produzem efeitos profundos em humano, incluindo alucinações visuais e distúrbios sensoriais semelhantes aos sintomas observados em pacientes com síndromes neuropsiquiátricas como a esquizofrenia (ROSSATO, 2008). 

Muitos cogumelos alucinógenos são fungos coprófagos, podendo ser comumente localizados sobre fezes de animais. A época do ano onde são encontrados mais facilmente é no outono, devido à umidade e temperatura amena observadas nesta estação. Alguns destes fungos, quando são manuseados, apresentam uma mancha roxo-azulada e esta coloração é atribuída à oxidação enzimática de substratos indólicos como triptofano, serotonina ou psilocibina. Além disso, a cor apresentada é utilizada como indicadora da atividade alucinógena, mas é importante ressaltar que essas reações também podem ser observadas em espécies que não possuem efeitos psicotrópicos (ROSSATO, 2008).

Do ponto de vista toxicodinâmico, a psilocibina e a psilocina são agonistas serotonérgicos com atividade predominante sobre os receptores 5-HT2. Estes receptores se encontram distribuídos em ampla escala pelo sistema nervoso central, sendo observada alta densidade dos mesmos nos córtices pré- frontal, parietal e somatossensorial. Um estudo realizado por Hasler (2004) demonstrou que a psilocibina aumenta os níveis de dopamina estriatal, produzindo euforia. Apesar de ativar sistemas dopaminérgicos, tais substâncias não produzem dependência. É possível que, em resposta a administração dos alucinógenos, apenas as áreas corticais recebam um acréscimo dopaminérgico, enquanto áreas como o núcleo acumbens, envolvido no mecanismo de reforço, não sejam ativadas (ROSSATO, 2008).

A psilocibina é rapidamente desfoforilada em psilocina por fosfatases alacalinas e esterases inespecíficas presentes na mucosa intestinal quando se encontra In vivo, por esse motivo acredita-se que a psilocibina seja um pró-fármaco e a psilocina o verdadeiro agente farmacológico. Esta, por sua vez, é desmetilada e posteriormente oxidada a 4-hidroxi-indol-acetaldeido (4-HIA) por enzimas como as monoamino-oxidases e a aldeído desidrogenase, presentes no fígado. Este composto é o intermediário metabólico do ácido 4-hidroxi-indol-3-acetico (HIAA). A excreção acontece predominantemente na forma de psilocina-O-glicuronídeo (ROSSATO, 2008). 

Os sintomas da intoxicação por cogumelos psilocibínicos começam após 20 a 30 minutos da ingestão via oral, atingindo o seu pico em duas horas e decaindo nas três a quatro horas subsequentes (BERGER, 2005). Os efeitos podem persistir até oito horas após a ingestão, quando a maioria dos metabólitos é excretada. Após uma semana do uso, ainda é possível detectar pequenas quantidades dos produtos do seu metabolismo.

Do ponto de vista legal, a psilocibina e a psilocina fazem parte da Lista de Substâncias Psicotrópicas de uso proibido no Brasil, assim definidas pela Portaria 344/98 da ANVISA (ANVISA). Porém, o controle destas substâncias é prejudicado, pois esta possui grande disponibilidade, já que os cogumelos com essas substâncias se desenvolvem espontaneamente no solo, o que favorece o seu uso abusivo (ROSSATO, 2008).

A maior parte das intoxicações por espécies psilocibínicas não são letais, mas possuem efeitos similares aos conseguidos com a administração de LSD, porém, duzentas vezes com menor intensidade. Os sintomas podem ser: alucinações visuais (especialmente com alterações das cores), sinestesia, confusão, desorientação, comportamento inapropriado, labilidade emocional, relaxamento muscular, midríase, taquicardia e respiração rápida. De acordo com estudos realizados, esta substância quando introduzida por via oral, é a que apresenta menor risco de dependência e letalidade aguda (BERGER, 2005).

O uso de benzodiazepínicos serve para tratar a agitação, hipertensão e alucinações (ROSSATO, 2008). Fenotiazinas como tioridazina e clorpromazina, têm sido usadas no manejo de possíveis surtos psicóticos (BERGER, 2005). No caso de feniletilamina estar presente nos cogumelos contendo psilocibina, pode ocorrer teste de urina falso-positivo para anfetaminas (BERGER, 2005).

Os chamados "cogumelos mágicos" podem ser ingeridos frescos ou secos. Há relatos do uso em chás, sopas, misturados à carne cozida, ao leite, em mel e em omeletes. A camuflagem destes fungos em chocolate ou mel já foi descrita como uma forma de transportá-los e exportá-los. O mel preserva a potência dos cogumelos de maneira mais eficaz do que quando eles são secos ou congelados, especialmente se colocados em contato com o mel logo após terem sido fatiados. Isso prejudica a quantificação da psilocina e psilocibina devido à dificuldade de isolar tais componentes (ROSSATO, 2008). Os fungos alucinógenos mais conhecidos são:

  • Amanita manicus: É o alucinógeno mais antigo usado pelo homem;
  • Botelus manicus: Relacionado à loucura dos fungos;
  • Conocybe siligineoides: Fungo alucinógeno sagrado no México;
  • Conocybe cyanencens: Encontrado nos EUA;
  • Copelandia cyanencens: Cultivado sobre o esterco de vaca;
  • Heimiella angrieformis: Não se conhece sua constituição química;
  • Panaeolus sphinctrinus: Fungo sagrado utilizado para adivinhação, que cresce sobre esterco de vaca;
  • Psilocybe caerulescens: Fungo alucinógeno sagrado no México;
  • Russula aglutina: Apresenta ácido esteárico em sua composição;
  • Stropharia cubensis: Usado por xamãs.

Ainda não se sabe ao certo sobre a ocorrência de flashbacks - distúrbios de percepção, como formas geométricas, imagens coloridas, macropsia, micropsia, cores intensificadas e alucinações anos depois da utilização de alucinógenos - apesar deste, ser frequentemente relatado. Em um estudo de caso realizado por Espiard e colaboradores (2005), observou-se que estes fenômenos podem ser episódios, induzidos por stress ou outras substâncias, consideradas "gatilho". Em outros estudos observou-se que o uso concomitante com outras doses podem disparar tais efeitos em determinados indivíduos (ROSSATO, 2008).

Alguns autores defendem a exploração do potencial do uso terapêutico das substâncias alucinógenas. Um exemplo para uso terapêutico seria no Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), uma vez que o sistema serotonérgico tem um importante papel neste transtorno. Porém, necessita-se de estudos criteriosos antes que aprove o seu uso medicinal, já que possuem potencial abusivo e podem ocasionar flashbacks (ROSSATO, 2008).

Esse trabalho foi realizado durante a faculdade na aula de toxicologia, juntamente com Peres, T H.

REFERÊNCIAS

OGA, Seizi; CAMARGO, Márcia Maria; BATISTUZZO, José Antonio. Fundamentos de Toxicologia. ed. 3. São Paulo: Atheneu, 2008.

ROSSATO, Luciana Grazziotin. Avaliação Taxonômica de Cogumelos da Espécie Psilocybe Wrightii. 2008. 42 f. Trabalho de Conclusão da Disciplina de Estágio Curricular em Farmácia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.

BERGER, KJ; GUS, DA. Micotoxins revisited: part II. The Journal of emergency Medicine, n. 2, p. 175-183, 2005.


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